sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Sonho de gente grande



Publicado originalmente no blog Turismo e Desenvolvimento, em 25 de julho de 2017.

Sonho de gente grande

Por Leila Oliveira

O sonho em que você está no cinema assistindo a um filme é um grande indicativo de momentos maravilhosos que estão por vir, e o sonho veio...

Regilson Cavalcante Silva, paraibano, de Remígio, fez o seu sonho se tornar realidade. Um vislumbrado, que desde criança, frequentava o cinema da cidade, quando veio a ideia de ter seu próprio cinema. Já adulto usava os negativos de fotos de monóculo - fotos que eram vistas a olho nu, das décadas de 50/60 - utilizando fraldas de seus irmãos como pano de fundo como tela.

Assim nasceu o mecânico/empresário, viajando em seus objetivos e realizando seus sonhos, com recursos próprios, com força de vontade e muita determinação, tirando de seus parcos recursos como mecânico, para comprar seu primeira projetor, versão 35mm, e abrir seu cinema em 2012. Com um público pequeno, usou seu talento para "colocar na rua", como projetista, bilheteiro, eletricista, enfim, era o faz tudo em seu cinema, o CineRT, alugando mesmo prédio do antigo Cine São José, quando Remígio não era nem cidade, mas já exista a 7ª arte.

E Regilson, contrariando a tudo e todos, consegue resgatar o sonho de criança, agora realidade. E assim chega a 2017, com um cinema digitalizado, moderno, poltronas confortáveis, exibindo filmes que em todo cinema nacional exibe neste momento, com sessões de segunda a segunda, sempre com público cativo, e, com o Caminhos do Frio, esse público diversificou, visto ser uma atração turística da cidade.

Texto e imagens reproduzidos do blog: turismoedesenvolvimentopb.blogspot.com.br

No Escurinho do Cinema





Fotos Teresa Duarte.

Publicado originalmente no blog Turismo e Desenvolvimento, em 28 de julho de 2017

No Escurinho do Cinema

Por Teresa Duarte

         Uma história de amor que se tornou atrativo para a população de Remígio e municípios vizinhos. Nada melhor que ter o prazer de curtir um filme no escurinho do cinema. Essa história tem como protagonista o mecânico paraibano Regilson Cavalcante Silva, quando decidiu tornar em prática o sonho e assistir ao filme no escurinho do cinema.

Quando criança o mecânico conta que costumava ir ao cinema e já despertava a vontade de fazer o seu próprio, “eu pegava as fotos de monóculos da minha mãe, peças de plástico colorido que continha fotos de família no fundo da lente, e eu usava os negativos exibindo um filme em panos como fundo de tela”. E foi com muita determinação e recursos obtidos na sua oficina mecânica que ele adquiriu o seu próprio cinema.

         Em 2012, resgatando o mesmo prédio que abrigava o antigo Cine São José em sua infância, ele alugou o local e comprou o seu primeiro projetor que era na versão 35m m. O empenho colocou Remígio na projeção sendo ele hoje o único município da Paraíba, entre poucos no Nordeste, que possui o cinema de rua. De proprietário a projetista, bilheteiro, eletricista, faxineiro, pipoqueiro e tudo que é necessário para projetar o filme, funções que cabe ao mecânico no CineRT de Remígio.

         Foi um longo percurso para aliar o cinema a sua oficina mecânica para hoje colocar em cartaz filmes ao mesmo tempo em que são exibidos nos grandes cinemas nacionais. As sessões de segunda a segunda estão sempre lotadas no espaço moderno com muita criatividade, sendo digitalizado e com confortáveis poltronas, acesso ao cadeirante com o preço acessível onde a inteira custa R$ 10 e meia R$ 5. O CineRT fica na rua Flávio Ribeiro Coutinho, número 30, no centro de Remígio.

Texto e imagens reproduzidos do site: turismoedesenvolvimentopb.blogspot.com.br

Regilson Cavalcante e seu cineminha, no município de Remígio/PB.


 Regilson Cavalcante manuseia antigas películas utilizadas no cinema. 
Foto: Kleide Teixeira/Reprodução.


O cinema passou por reformas e recebeu novos equipamentos. 
Foto: Reprodução.

Publicado originalmente no site Conexão Boas Notícias, em 31 de julho de 2017.

Mecânico da cidade de Remígio mantém único cinema de rua do Nordeste

Por Marcella Machado 

Na sala escura, sentados em poltronas confortáveis, o público assiste aos mais recentes lançamentos do cinema. Do lado de fora, no lugar da agitação do shopping, a cidade circula. O Cine RT, em Remígio, na região do Curimataú da Paraíba, é o único cinema de rua do Nordeste em funcionamento.

A casa, antiga sede do Cine São José, fruto do sonho do mecânico Regilson Cavalcante. “Quando criança frequentei esse espaço. Achava maravilhoso assistir, ver aquela tela enorme, saber de onde davam vida àquela projeção e até achava interessante o barulho do projetor”, contou.

O menino que retirava do lixo restos de película para fazer o seu próprio cinema, com o tempo, viu a brincadeira se transformar em negócio. “Eu pegava essas películas, colocava numa caixa de sapatos adaptada com lâmpada e lente e as projetava nas fraldas de pano dos meus irmãos, que eram bem branquinhas, davam uma ótima tela”, relembrou.

Com muito esforço, Regilson Cavalcante alugou o prédio do antigo Cine São José dos herdeiros, reformou o espaço e rodou a Paraíba e estados vizinhos para conseguir as peças e colocar o cinema em funcionamento, ainda com equipamentos analógicos.

O Cine RT foi inaugurado em 12 de fevereiro de 2012. O nome da casa é formado pelas inicias de Regilson e da esposa Thamires. O mecânico mantém o espaço com a oficina que construiu próximo ao cinema e com os rendimentos da bilheteria.

Os poucos anos em cartaz tornam o lugar ainda uma novidade. “As pessoas ainda estão se acostumando com a ideia. Foi um longo tempo do cinema parado. Mas hoje nós já contamos com um bom público e das cidades vizinhas também”, comentou o dono.

Bomboniere, bilheteria, espaço para mais de 90 pessoas, som e imagem digitais. A parte interna do prédio dos anos de 1960 revela um espaço moderno como os das salas dos grandes centros. “Tenho o único cinema de rua da Paraíba, e com programação de shopping”, comemorou Regilson Cavalcante.

Serviço
Endereço: Rua Flavio Ribeiro Coutinho, nº 30, Remígio – Paraíba
Funcionamento: das 13h às 21h
Contato: (83) 9 9971-5683
Facebook: https://www.facebook.com/CineRt.Remigio/
Com informações: O Globo.

Texto e imagens reproduzidos do site: conexaoboasnoticias.com.br
------------------------------------------------------------------
Veja + sobre o Cine RT, clicando o link abaixo:

terça-feira, 29 de agosto de 2017

A reunião de cinéfilos da intelligentsia curitibana

 A sala do Cineclube Pró Arte, já como Riviera Cinema de Arte, 
aberto em 1967: após a reforma espaço ganhou cadeiras estofadas e banheiros

 Programação do Cineclube Pró Arte: opção por filmes de qualidade.

 Cartazes de Um Dia, Um Gato, que inaugurou as sessões no Riviera.

Iwersen com o cartaz original de um filme de Jean-Luc Godard, 
exibido no cineclube.

Publicado originalmente no site Gazeta do Povo, em 23/02/2013

A reunião de cinéfilos da intelligentsia curitibana

Cineclube Pró Arte, que funcionou há 50 anos no Colégio Santa Maria, reuniu vários intelectuais da cidade; história que fotógrafo pretende registrar em livro

Por Isadora Rupp.

Num auditório com pouco mais de 300 lugares, nem os bancos duros de madeira atrapalhavam, na década de 1960, cinéfilos encantados com filmes do italiano Federico Fellini e do francês François Truffaut projetados no Cineclube Pró Arte, que funcionou, há 50 anos, em um espaço do Colégio Santa Maria. Era a maneira de fugir da programação dos outros cinemas de Curitiba, dominada por produções oriundas dos grandes estúdios americanos. O escritor Paulo Leminski e o cineasta Sylvio Back costumavam aparecer. Uma dezena de jornalistas que incluía o crítico de cinema e música Aramis Millarch eram presença garantida.

“Era, digamos, a intelligentsia da cidade que ia lá, mais as pessoas de fora que, como eu, queriam aprender”, conta o fotógrafo Dico Kremer, que era aluno do colégio. Foi no cineclube que ele teve o primeiro contato com Leminski, de quem virou amigo depois, e onde conheceu o livreiro Aristides de Oliveira Vignolis, dono da Livro Brás. “Ele era do Partido Comunista, e muito debochado. Compramos muita coisa dele.”

Do começo informal das sessões, com projeções feitas pelos Irmãos Maristas esporadicamente, mais especificamente pelo Irmão Ruperto Félix, que era o fotógrafo da escola, surgiram alunos engajados a incentivar ações culturais, entre eles José Augusto Iwersen, que integrava o Grêmio dos Alunos do Santa Maria (GASM) e presidiu o cineclube. “A maneira que vimos para desenvolver o gosto dos alunos por cinema foi realizar sessões com debates. A coisa evoluiu quando a direção do GASM convidou estudantes e professores de outros colégios, e as meninas do Sion e do Divina Providência. Assim, as projeções tornaram-se abertas ao público”, relembra Iwersen.

Para frequentar o cineclube, era necessário pagar um ingresso ou tornar-se sócio do Pró Arte, mediante pagamento de uma taxa mensal. “Surgiu um estatuto e pessoas responsáveis por cada setor. Tinha um supervisor escolhido entre os Irmãos Maristas para cuidar da entrada quando o filme tinha censura de mais de 14 anos e da limpeza”, explica Iwersen.

A qualidade do conteúdo projetado (filmes de Jean-Luc Godard, Alain Resnais, Louis Malle, entre outros), que Iwersen conseguia basicamente em uma filial da França Filmes (que existia na Praça Tiradentes) era inversamente proporcional ao espaço físico: os assentos eram de madeira, a “única coisa chata”, segundo Kremer, e não existia banheiro. Quem se apertava tinha de correr para as “casinhas” do Santa Maria, que ficavam em outro andar.

Erros na projeção e troca de um rolo de filme por outro eram comuns. “Afinal, um dos projecionistas era o extravagante Estevão Erwin Von Harbach. Brigas e expulsões quando haviam debates eram comuns”, diz Iwersen. Em uma ocasião, Dico Kremer foi ao cineclube rever 8 ½, de Fellini. “Logo percebi o erro. Como eu tinha acesso à cabine, fui até lá e disse que ele havia se enganado, e começamos a bater boca. Até que ele respondeu que, para aquele filme, não importava se o rolo estivesse trocado ou não (risos).”

Riviera

Com o sucesso crescente das sessões foi oferecido para Iwersen a gerência do espaço (que seria arrendado por outra pessoa, que acabou desistindo) e aberta uma porta direta para o cinema, na esquina das ruas Marechal Deodoro e Tibagi. Ele então fez um contrato com a MC Filmes, de São Paulo, que lançava produções tchecas no Brasil, e uma reforma geral no cinema, com troca por cadeiras estofadas, levantamento do piso para melhor visibilidade e, claro, banheiros. Surgia o Riviera Cinema de Arte, em 1967. “O lançamento de Um Dia, Um Gato [do tcheco Vojtech Jasny] deixou o cinema cheio por quase três meses”, recorda.

Porém, os bons tempos do cineclube não persistiram, mesmo com algumas iniciativas de trazer atores famosos para debater filmes (Glória Menezes e Leonardo Vilar vieram para discutir O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte), e o Riviera fechou poucos anos depois. “Como não me interessava em exibir filmes comerciais resolvi encerrar as atividades. Uma coisa ficou clara: cinema de arte precisa de sala pequena”, conclui Iwersen.

Registro

O fotógrafo Dico Kremer pretende reunir em um livro os materiais que têm sobre o Pró Arte e o Riviera. Faltam agora depoimentos de antigos frequentadores, e não há prazo definido para publicação. “Acredito que essa história tem de ser escrita, o cineclube teve um papel muito importante na formação para quem frequentou. Aquilo foi uma aula de como ver o cinema.”

Texto e imagens reproduzidos do site: gazetadopovo.com.br

Cineteatro São Luiz, em Fortaleza - CE.






Publicado originalmente no site Especiais O Povo 

Já vi esse filme...

Tapete vermelho para o velho projecionista passar. Às vésperas de completar 72 anos, com olhos rasos d´água e beca de convidado especial, José Natal Marcelo de Oliveira (1942 - 2017) alcançou, orgulhoso, a noite oficial de reabertura do Cine São Luiz, em 25 de dezembro de 2014. Restaurado em seus minuciosos detalhes cênicos, técnicos e decorativos, à luz de um nada acanhado projeto arquitetônico original, o “xodó” do Grupo Severiano Ribeiro, empresa-símbolo do espetáculo cinematográfico no Brasil, caía-lhe novamente no colo como que embrulhado para presente, em reverência àquele que, ao longo de 43 anos, precisamente entre 1962 e 2005, projetou, solitário da cabine escura, uma lista incontável de filmes para plateias igualmente diversas e sempre tomadas de encantamento diante da suntuosidade e beleza ímpares do maior e único cinema de rua de Fortaleza – um “templo” incomparável de 1.200 lugares.

O início

Capricho do dono do negócio, o cearense Luiz Severiano Ribeiro (1886-1974), que apostou todas as fichas de empresário visionário na maior diversão do novidadeiro século XX para, em 1958, já firmado no mercado nacional, cravar, em estilo art-déco, com toda a pompa e circunstância, sobre o chão da Praça do Ferreira, no centro de Fortaleza, a sua mais vistosa assinatura. Demorou, mas chegou. Mais de 20 anos se passaram entre o anúncio e a confecção do projeto arquitetônico do São Luiz, ainda em 1935, e sua concretização. Tempo que abriu espaço para lendas, superstições, galhofas e críticas. Há quem diga que a Segunda Guerra Mundial e a dificuldade de importação botaram abaixo a empreitada. Mas também há quem garanta que ali tem dedo de uma certa cartomante que previu a morte de um supersticioso sr. Ribeiro tão logo ele inaugurasse o cinema em Fortaleza.

Valeu a espera. Quando o cine São Luiz finalmente “desencanta”, para abrir as portas em 26 de março de 1958, o projeto do arquiteto cearense radicado no Rio de Janeiro, Humberto da Justa Menescal, é festejado como se tivesse acabado de saltar da prancheta, atraindo todas as loas esperadas de público e crítica, que também se renderam sem reservas à decoração do salão assinada por Osório Ferreira e Marcelino Guido Budini, bem como à pintura ambiente farta em douramentos da firma Schaffer & Harvath.

Luxo a olhos vistos. O auditório de 2.653 metros quadrados era do chão ao alto uma obra de arte, embasbacando a sociedade de fino trato obrigatoriamente levada a vestir paletó e trajar vestidos longos para adentrar o recinto, além de pagar ingressos que poderiam custar entre 12 e 20 cruzeiros, quando um jornal à época não saía por mais de 3. O cinéfilo e pesquisador Ary Bezerra Leite, autor do livro A Tela Prateada, Ary Leite dá detalhes: “palco com recursos para teatro, acesso pelo imponente hall e escadarias para o balcão, realçados pelo piso e revestimento em mármore de Carrara, por lustres de cristal tchecos e ricos tapetes. A qualidade de projeção resultava da excepcional tela de 14 metros, dois projetores americanos com projeção em cinemascope e lentes planas, com lâmpadas Xenon e sistema de som estereofônico de quatro faixas, totalizando 30 caixas de som. Impressionavam igualmente as salas de espera em dois níveis e a temperatura ambiente controlada por duas máquinas de ar-condicionado da marca Carrier com capacidade de 60hp, uma verdadeira novidade para a época, já que as demais funcionavam à base do ar-refrigerado, quando muito”.

Não à toa, segundo o pesquisador, o ritual de inauguração do São Luiz atraiu todos os olhares, tendo como centro das atenções o próprio dono do negócio, Luiz Severiano Ribeiro, e seu filho, Ribeiro Júnior, cuja chegada no aeroporto Pinto Martins, em Fortaleza, foi devidamente documentada em audiovisual. Uma noite memorável para seletos convidados, com direito a cordão de isolamento a fim de conter o frisson da turma do sereno, espremida nos arredores da Praça do Ferreira. Às 21h30min, a plateia de moradores e visitantes renomados lotou o confortável salão de poltronas vermelhas para assistir ao filme Anastácia, a Princesa Esquecida, produção americana dirigida por Anatole Litvak, com Ingrid Bergman no papel-título, já agraciada com o Oscar de melhor atriz em 1956.

A partir do dia 27 de março de 1958, lembra Ary Leite, o São Luiz abriu as portas ao grande público. Em clima de festa, exibiu dia após dia um pacote de nada menos do que 28 películas, tendo entre os clássicos O Homem que Sabia Demais e Ladrão de Casaca, ambos de Alfred Hitchcock; O Manto Sagrado, de Henry Koster, primeiro filme na história do cinema realizado com cinemascope e som estereofônico; Juventude Transviada, com James Dean; Ama-me com Ternura ou Love me Tender, com Elvis Presley; Luzes da Ribalta, de Charles Chaplin, entre outros tantos. Foi início de um ciclo de disputadas exibições com filas de dobrar o quarteirão numa época em que filmes em cartaz no São Luiz não podiam ser exibidos nos demais cinemas da cidade, a partir dali considerados de segunda ou terceira categoria, o lugar da classe média e da arraia miúda.

E se o público inaugural do São Luiz tinha que vestir paletó e gravata para adentrar o recinto, além de portar-se civilizadamente, o rigor era o mesmo internamente, com vistas a manter a ordem e a disciplina. Seu Natal, o projecionista, ainda chegou a contar: “Tive contato com o primeiro Ribeiro umas cinco vezes. Ele me recebia muito bem. “Como o sr. tá?”. Também com o Ribeiro Jr. Ele vinha todos os anos, se hospedava no hotel. E de noite rodava os cinemas. Uma vez foi barrado pelo porteiro novato. Era muito rigorosa a portaria. Nesse tempo, não tinha roleta nem nada. Só uma correntezinha e a urna. Aí ele chegou e disse que era Luiz Severiano Ribeiro. Aí o porteiro: “um momento, vou chamar o gerente, o sr. não pode entrar”. Quando o gerente desceu as escadas e viu o seu Ribeiro do lado de fora quase caiu lá de cima. Aí disse pro porteiro: “olhe, esse é o seu patrão, o proprietário do cinema!”. Sabe o que o seu Ribeiro fez? Chamou o gerente e disse: “olhe, o trabalho foi maravilhoso, ele está cumprindo as normas da empresa”. E virou-se pro porteiro: “você não me conhece, eu moro no Rio e é isso mesmo, não podia me deixar entrar”. Eles era muito rigorosos como patrões, mas sabiam agradar”.

Causo

Entre envergonhado e jocoso, seu Natal narrou ainda o dia em que todos no cinema falharam ao não perceber a entrada clandestina, provavelmente dentro de algum paletó, de uma galinha viva no recinto. Prova inconteste da inoxidável molecagem cearense.  “No São Luiz, tinham seis policiais tomando de conta à tarde e seis à noite. As multidões eram grandes. Aí teve a exibição de um filme romano, cedo a fila se formou, passando da Guilherme Rocha. Eu subi, o gerente disse que podia começar a projeção. Com 30 minutos, telefonou lá de baixo pra cima. “Pare imediatamente a projeção”. Acenderam as luzes. Veio polícia de todo jeito. “Quem foi, quem não foi...” Só se soube depois: jogaram uma galinha lá de cima do cinema, uma monstra, que foi bater na frente da tela. O gerente mandou botar numa caixa, os lanterninhas correram e levaram. Nunca descobriram quem foi. E no outro dia, o gerente ainda chamou reunião pra dizer que foi a galinha caipira melhor que ele já havia comido”, riu-se.

O “Seu Luiz” é nosso!

Relicário que faz lembrar. Mas não somente. Tombado e protegido como patrimônio histórico estadual, o cine-teatro São Luiz, adquirido e recuperado pelo Governo do Estado do Ceará, através de sua Secretaria da Cultura, rompe o século XXI pleno de vitalidade, acolhido por públicos diversos e radicalmente aberto à pluralidade de linguagens artísticas e manifestações culturais.

Há pouco mais de dois anos na direção do equipamento, hoje aberto de terça-feira a domingo e funcionando como cine-teatro, dupla função originalmente prevista no projeto arquitetônico de 1935, a gestora Rachel Gadelha se dedica a virar a página de um espaço que nasceu concebido para uma elite e tem como desafio e exigência a plena abertura à diversidade cultural.

Plural e democrática, a programação vem contemplando não só o audiovisual e as artes cênicas, como também a música, as culturas tradicionais populares, a literatura, o circo, o humor, a dança e as artes híbridas. É gratuita a maior parte da programação do São Luiz. E, quando não, são cobrados preços populares em shows e eventos especiais. Assim, há quem chegue de carro, ônibus, bike ou a pé.

Cine que educa

Em parceria com as secretarias de educação do Estado e Município, o projeto Escola no Cinema desponta como um assumido xodó da atual direção. Pelo menos duas vezes por semana, o São Luiz foca em exibições gratuitas de premiados curtas-metragens brasileiros com temáticas infanto-juvenis, lotando os mais de mil lugares com estudantes de escolas públicas e privadas da Capital e do interior devidamente acompanhados de seus professores.

Em 14 meses de exibições, o projeto já atendeu a mais de 50 mil alunos de pelo menos 400 escolas. Desse público estudantil, 70% nunca havia ido ao cinema e 95% desconhecia a existência do São Luiz. Segundo a diretora, o projeto Férias no São Luiz tratou de diminuir esse abismo. Durante o último mês de julho, o cine-teatro recebeu um público de 26.917 espectadores em 48 sessões especiais de cinema voltadas ao público infanto-juvenil. Considerando as demais linguagens, 32.088 pares de olhos curiosos se deleitaram com a programação e o lugar.

São Luiz dia a dia

O projeto “Clássicos São Luiz” é outro sucesso de público, atraindo as mais diversas gerações. Filmes como Titanic, Ghost - Do Outro Lado da Vida, Tubarão, Pulp Fiction - Tempo de Violência, Rocky, Um Lutador, Superman e Taxi Driver são vistos ou revistos envoltos em uma aura de “acontecimento”. A imersão coletiva em meio às Maratonas de cinema também. É a oportunidade de rever todo o Star Wars, todo o Senhor do Anéis, todo o Indiana Jones. Com direito a fã-clube fazendo fila logo cedo lá fora, aplaudindo no meio da projeção a cena predileta e até entrando no recinto com o figurino de seu personagem-ídolo ou uma espada luminosa a tiracolo. Performances inimagináveis no São Luiz de outrora, onde qualquer manifestação ruidosa ou comportamento extravagante era reprimido.

Hora do almoço. Às quartas-feiras, o São Luiz é o lugar da melhor digestão, na esteira do Curta o São Luiz, projeto que contempla desde o teatro de bonecos até as apresentações de música erudita e canto lírico. Uma caixa de som é colocada lá fora e bastam ressoar os primeiros acordes para transeuntes, moradores de rua, comerciantes e trabalhadores em geral se deixarem atrair e fascinar pela joia rara que muitos não sabiam existir ou poder acessar até então. O mesmo vale para o Curta mais Teatro, onde artistas e grupos do Ceará e outros estados se apresentam mensalmente.

Foco particular na Sessão Sonora. “É a cara do São Luiz, justamente porque ele é um dos poucos cines-teatros em funcionamento no Brasil. Acontece espaçadamente aos domingos, quando exibimos um filme seguido de show musical. Por exemplo, teve os 40 anos do filme Help. Ou uma efeméride ligada à Luiz Gonzaga. Daí primeiro a plateia assiste ao documentário e, quando acaba, aquela tela sobe e imediatamente a banda já está posicionada no palco para começar a tocar. É emocionante”, testemunha Rachel, destacando ainda a qualidade e diversidade de shows musicais que lotaram o São Luiz e fizeram chegar ao local desde um arrojado Liniker até a clássica diva Ângela Maria.

“É preciso coragem para ser aberto e diverso. Nossa curadoria é coletiva, procuramos atender as demandas de artistas e produtores culturais e também das pessoas que entram no Facebook e dão sugestões ou exigem mesmo a presença de seus ídolos no São Luiz. Somos muito demandados. Mas apesar de desafiador isso é um bom termômetro. Sinal de que o São Luiz está sendo apropriado pela cidade cada vez mais, tanto assim que muitos acessam a nossa página se dirigindo ao São Luiz como se ele fosse uma pessoa, o Seu Luiz, sabe? E a ideia é mesmo essa, fazer do São Luiz uma grande casa acolhedora, um lugar de convergência de todos os bairros e o grande indutor de uma ocupação vital, potente e múltipla do centro da Cidade”, defende a diretora.

Números

No dia 25 de julho, em dois anos e dois meses desde a sua reabertura diária pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, o Cineteatro São Luiz alcançou a marca de 200 mil espectadores de cinema (com os filmes brasileiros ocupando 43% da grade da programação) e 335.000 espectadores em todas as linguagens (incluindo shows, sessões sonoras, espetáculos circenses, musicais, entre outras).

Texto e imagens reproduzidos do site: especiais.opovo.com.br

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Retrato de Projecção # 14: A Cinemateca Júnior no Salão Foz













Retrato de projecção 14: a Cinemateca Júnior no Salão Foz
De Tiago Baptista · Em Julho 20, 2017

Todos os sábados à tarde, antes de arrancar a sessão das 15 horas, a sala da Cinemateca Júnior é uma animação. Pais e filhos enchem a plateia do Salão Foz de gritos e risos, misturados com admiração pela decoração da sala: o ecrã emoldurado por pilastras e um frontão triangular, baixos-relevos de estuque nos balcões e no palco, candelabros pendurados do tecto, o chão revestido de alcatifa, os nichos com aparelhos de pré-cinema atrás da última fila de cadeiras, as cortinas de veludo amarelo-torrado e as grandes portas de madeira que deixam entrever, na sala contígua, a exposição permanente de instrumentos ópticos e lanternas mágicas da Cinemateca Júnior. Nada que se compare, porém, com o silêncio deslumbrado – pontuado por exclamações, mais gargalhadas e mais gritos assustados – que acompanha o início da projeção (no dia da nossa visita, um programa de curtas da Disney em cópias de 35mm).

Dificilmente se poderia escolher melhor local para uma sala destinada à formação de novos públicos para o cinema. O atual Salão Foz está instalado num edifício carregado de história e numa das salas de cinema mais antigas da cidade. A Cinemateca Júnior está localizada no interior de um palácio do século XVIII/XIX, conhecido inicialmente como Palácio de Castelo Melhor e, depois de 1889, como Palácio Foz. Em 1901, na sequência de problemas financeiros, o marquês da Foz foi obrigado a vender o recheio do seu palácio num leilão que durou dias e que foi um dos maiores acontecimentos mundanos da Lisboa do início do século XX. Pouco depois, a própria capela privativa do palácio foi desmantelada e todo o edifício acabou por ser hipotecado a um banco e depois alugado parcelarmente durante as décadas seguintes. Nos espaços arrendados do rés-do-chão instalaram-se então várias lojas e restaurantes, entre os quais a célebre Pastelaria Foz e, na cave, o café-restaurante Abadia, inaugurado em 1917; no andar nobre instalou-se o maior clube noturno da Lisboa dos anos vinte, o Maxim’s. Em 1908, instalado na antiga capela privativa do palácio, abriu o Salão Central, sala de cinema explorada por Raul Lopes Freire, um dos empresários de cinema mais importantes do seu tempo. Mais tarde, o mesmo Lopes Freire inaugurou uma segunda sala de cinema na antiga sala de música do palácio, destruída por um incêndio em 1929.

Desde a sua abertura em 1908 e até à inauguração do cinema Tivoli, em 1924, o Salão Central foi a sala de cinema mais luxuosa de Lisboa, tendo procurado sempre cativar o público mais elegante da capital. A partir de 1917 teve uma orquestra residente de seis elementos para fazer o acompanhamento musical de todos os filmes e dispunha ainda de uma sala de espera e de um bar contíguos à plateia e com vista para os jardins nas traseiras do palácio. Para concorrer com outras salas mais novas e mais modernas, o Salão Central sofreu quase anualmente remodelações na sua decoração e melhoramentos nas suas condições de conforto que aproximaram a sala do seu aspecto atual. Em 1928, mudou igualmente de nome para Central Cinema, perdendo finalmente a designação de “salão”, associada às mais antigas salas de cinema e, cada vez mais, aos cinemas de bairro, de frequência mais popular. Passaram por este cinema alguns dos filmes mais marcantes da história do cinema estrangeiro e português: nos anos 1910, estrearam aqui vários melodramas dinamarqueses, como Atlantis (August Blom, 1913), ou o filme de reconstituição histórica italiano Cabiria (Giovanni Pastrone, 1914). A partir dos anos 1920, estrearam aqui vários serials americanos, bem como O Destino (Georges Pallu, 1922) e Mulheres da Beira (Rino Lupo, 1923), dois êxitos do cinema mudo português. Até ao final da década de 1920, estrearam vários filmes alemães, assinalando o gosto da época e também o facto de Lopes Freire ter sido um dos principais distribuidores de filmes desse país em Portugal, especialmente da mítica produtora UFA. Foi também nesta sala que tiveram lugar as estreias portuguesas de, por exemplo, O Gabinete do Doutor Caligari (Robert Wiene, 1920), ou de Dr Mabuse (1922), Espiões (1928) e A Mulher na Lua (1929), todos de Fritz Lang, ou ainda a Paixão de Joana d’Arc (Carl Dreyer, 1928). A partir de 1931, tiveram lugar as primeiras sessões de cinema sonoro no Central Cinema. Foi ali, também, que Manoel de Oliveira viu em 19 de setembro de 1931 o seu Douro, Faina Fluvial (1931) ser recebido com uma monumental pateada, episódio relembrado pelo realizador no mesmo local, passados exatamente 71 anos, na ante-estreia de Porto da Minha Infância (2001).

Foi ali, também, que Manoel de Oliveira viu em 19 de setembro de 1931 o seu Douro, Faina Fluvial (1931) ser recebido com uma monumental pateada, episódio relembrado pelo realizador no mesmo local, passados exatamente 71 anos, na ante-estreia de Porto da Minha Infância (2001).

Em 1940, o Estado comprou o Palácio Foz, onde viriam a instalar-se no final de 1947 o Secretariado Nacional da Informação (SNI) e, sob a sua tutela, a Inspeção Geral de Espectáculos (censura de filmes incluída) e a recém-criada Cinemateca Nacional. O antigo Central Cinema torna-se a “sala de conferências, concertos e cinema” do SNI sofrendo então a sua última remodelação, que lhe deu o aspecto atual, desenhada pelo arquiteto Luís Benavente, autor do projeto de restauro e adaptação de todo o Palácio Foz às novas funções. As sessões regulares da Cinemateca no Salão Foz, como é atualmente conhecida a sala, arrancaram em Setembro de 1958 com uma retrospectiva de cinema mudo português. Três anos antes, nas traseiras do Palácio Foz, tinham-se inaugurado os primeiros cofres climatizados da Cinemateca, que ali funcionaram até à abertura do seu centro de conservação fílmica – o ANIM –, em 1996.

As sessões regulares da Cinemateca no Salão Foz continuaram até 1980, data da sua mudança para instalações próprias na Rua Barata Salgueiro, onde permanece desde então, exceção feita a um breve retorno, entre 2001 e 2002, durante as obras de remodelação da Barata Salgueiro. Em 2007, o Salão Foz acolheu o projeto pedagógico e museológico da Cinemateca Júnior, que se divide entre sessões para as escolas do distrito de Lisboa durante a semana e, aos sábados, sessões abertas ao público (com um atelier para famílias na manhã do último sábado de cada mês). Além destas sessões, qualquer pessoa pode visitar, de segunda a sábado, a coleção de equipamentos cinematográficos, originais e réplicas, que conta o início da história do cinema e que é o “pórtico” do que poderá um dia vir a ser o “museu” da Cinemateca.

No dia da nossa visita, o responsável pela cabine é Michaël Monnier, um dos sete projecionistas da Cinemateca e que, juntamente com Sérgio Ribeiro, é quem mais tempo costuma passar na Júnior. Na nossa primeira visita encontramo-lo na cabine, no topo do balcão, preparando uma cópia de 35mm de Ponyo (Hayao Miyazaki, 2008) para uma sessão escolar. O espaço é pequeno para os três projetores (um Prevost de 16mm, 1 Zeiss Ernemann de 35m e um Kinoton FP38E de 16/35mm – o Kinoton veio do ICA e substituiu o segundo Ernemann que veio da antiga cabine da Barata Salgueiro). Tudo está impecavelmente arrumado e etiquetado, das prateleiras com objetivas e peças sobresselentes e às janelas de projeção de vários formatos, e há avisos por todo o lado. No chão, na parede oposta à das vigias, vários filmes já montados aguardam a sessão em que serão projetados. Existe uma pequena sala de montagem, mas a maior parte dos filmes já são entregues montados através de uma porta que liga diretamente a cabine à Calçada da Glória. É dali que chega também, em intervalos regulares, o ruído da passagem dos elevadores.

Michaël, 43 anos, está ligado ao cinema desde o nascimento, ou não fosse o seu nome uma homenagem a Michael Douglas, de quem a mãe era uma grande fã. Nasceu em França, em Pontarlier, perto de Besançon (quase na fronteira com a Suíça). Com 14 anos, já ajudava na bilheteira do cineclube Jacques Becker, fundado em 1960 e que ainda existe. Dois anos depois, começou a trabalhar com um amigo num cinema de Pontarlier: ele ocupava-se da cabine e o amigo fazia a bilheteira. Uma aventura para qualquer pessoa, um trabalho de sonho para dois adolescentes cinéfilos. E o início de uma carreira como projecionista que o levou a fazer um curso obrigatório com um exame teórico-prático em que tinha que preparar um pequeno programa com dois trailers e uma longa-metragem, identificando os formatos de projeção e as janelas corretas que deviam ser usadas para cada filme.

Ainda estudou gestão e comércio, mas desistiu porque queria estudar cinema. Trabalhou seis meses numa fábrica para juntar dinheiro e rumou ao Conservatoire Libre du Cinéma Français, em Paris, onde aprendeu montagem (ainda em película). Qualquer curso de cinema em Paris completa-se com as idas aos cinemas de arte e ensaio e à Cinemateca, que Michaël frequentou assiduamente. Acabou o curso em 1994 e, um ano depois, encontrou emprego na cadeia de cinemas Pathé, em Lyon. Regressou a Paris passados seis meses para trabalhar no Grand Rex (da UGC), que não é uma sala de cinema qualquer. Classificado como “monument historique” desde 1981, foi construído em 1930 como uma réplica reduzida do Radio City Music Hall de Nova Iorque. É um dos melhores exemplos dos “picture palaces” europeus, em França também conhecidos como “salas atmosféricas” devido às grandes dimensões dos auditórios e à decoração exuberante, muitas vezes inspirada em estilos decorativos históricos (podemos encontrar um modelo à escala lisboeta no Tivoli de Raul Lino, em imitação do estilo Luís XIV). A “Grande Salle”, com 2.700 lugares, é a maior da Europa, e também acolhe concertos. Desde os anos 1970, o Grand Rex funciona como multiplex, com mais 6 salas entre 500 e 100 lugares. Foi neste período que Michaël conheceu uma portuguesa e veio trabalhar para Lisboa. Passou ano e meio nos cinemas do recém-aberto Vasco da Gama, mas acabaria por voltar a França e aos multiplexes da UGC nos arredores de Paris. Confessa que sempre gostou destas salas por terem muitas máquinas a funcionar ao mesmo tempo (lembra-se de um turno em que ficou sozinho com os 24 projetores de um multiplex). Também gostava de saltar de um cinema para outro, o que considera uma excelente forma de ganhar experiência e de quebrar a rotina. Voltou a Lisboa e trabalhou no São Jorge até ao seu encerramento em 2000. Passou depois pelo laboratório da Tobis, onde reparou filmes de 16mm da RTP antes da sua digitalização. Mas aquela rotina não condizia com ele e por isso aceitou o convite para trabalhar na cabine da Cinemateca em abril de 2005.

Além da Cinemateca, trabalha como projecionista na Gulbenkian e nos festivais IndieLisboa e DocLisboa (ainda chegou a projetar na Malaposta), no Instituto Franco-Português até ao desmantelamento do auditório, em 2016, e nas extensões da Festa do Cinema Francês fora de Lisboa. Também passou pelo Rivoli, no Porto, pelos drive-ins de Montijo e Coimbra, e fez um verão de projeções de cinema em várias praias do país. Gosta muito da Cinemateca e especialmente da Júnior, mas – como muitos projecionistas – tem saudades do ritmo dos multiplexes. Confessa que por vezes ainda lhe faz confusão ocupar-se apenas de uma sala de cada vez.

Sérgio Ribeiro, 49 anos, é o outro projecionista da Cinemateca que costuma trabalhar na Júnior. Encontramo-lo durante uma sessão no terraço da Barata Salgueiro e, noutra visita, na cabine da sala M. Félix Ribeiro. Sérgio começou a trabalhar na cabine dos Olivais, que já sabemos foi um viveiro de projecionistas de multiplex em Lisboa. Foi ali que projecionistas mais antigos, como Vítor Oliveira, transmitiram os seus conhecimentos e experiência aos colegas mais novos. Sérgio passou depois ao Colombo e ainda se recorda muito bem da cabine enorme e dos quilómetros que lá fez dentro. Foi chefe de cabine e dali foi inaugurar o Vasco da Gama, regressando brevemente ao Colombo antes de ir para o Oeiras Parque, onde tomou o lugar de Abel Arnaut quando este regressou a Lisboa. Foi em Oeiras que, uma vez, partiu uma vez a cabeça num tecto falso e, noutra vez, teve que interromper a sessão para ir atar com cordas improvisadas as máscaras do ecrã que se tinham partido durante a projeção. Ainda passou novamente pelos Olivais até, no início de 2002, fazer um interregno no trabalho de projecionista.

Entrou para a Cinemateca em maio desse ano, estreando as salas novas da Barata Salgueiro em janeiro de 2003. Encostado à enroladeira elétrica ao fundo da M. Félix Ribeiro, Sérgio conta que “foi então que percebi que não sabia nada de projeção”. Só conhecia três formatos, velocidades únicas, o 35mm, o cinema sonoro e as cópias montadas. Houve, como aconteceu com todos os projecionistas que entraram na Barata Salgueiro, um período de adaptação e aprendizagem. Desde então, além da película, Sérgio aprendeu ainda a usar vários formatos vídeo e, mais recentemente, a projeção digital (incluindo o 3D). O digital só representa uma ruptura radical se não levarmos em conta a projeção em vídeo. Numa cabine de cinemateca, cada transição tem que implicar a manutenção da tecnologia de projeção anterior para que se possa garantir sempre o imperativo de mostrar cada obra no formato em que foi originalmente distribuída. O que não quer dizer que os projecionistas deixem de ter opinião sobre as máquinas que usam. Todos os colegas de Sérgio explicam que a nova geração de projetores de película tem muitos componentes eletrónicos que impedem aquela relação próxima com as máquinas mais antigas, quase exclusivamente mecânicas, com que muitos deles aprenderam a profissão, nos multiplexes comerciais.

Como não podia deixar de ser, uma conversa que começou na cabine da Júnior já se transportou para a da Barata Salgueiro. Não são apenas os filmes, mas também os projecionistas e as próprias máquinas que circulam entre estes dois espaços. É tempo, por isso, de parar este texto para recomeçar, noutro, a história da projeção nas salas da Cinemateca na sua sede da Rua Barata Salgueiro.

Fotografias de Mariana Castro

Agradecimentos: Michaël Monnier, Sérgio Ribeiro, Maximino Fernandes, Rui Machado, Margarida Sousa.

Texto e imagens reproduzidos do site: apaladewalsh.com

Os dias de glória do cinema poeira



Publicado originalmente no site Webinsider, em 01 de dezembro de 2012.

Os dias de glória do cinema poeira

O cinema "poeira" teve seus momentos de importância na vida do fã de cinema de outrora. E a sua lembrança pode facilmente ser revivida nos dias de hoje, com a mídia disponível ao usuário.

Por Paulo Roberto Elias 

A minha geração e as que me antecederam frequentaram salas de exibição classificadas como “cinema poeira”, ou ainda “poeirinha”, como muitos gostavam de chamá-las.

A ida ao cinema poeira não era somente falta de opção, ao contrário: naquela época, o relançamento ou reprise de muitos filmes nos cinemas lançadores acontecia ocasionalmente. Em outros aspectos, o cinema poeira preenchia um vazio dos outros cinemas: a exibição ostensiva de filmes da chamada “classe B”, aqueles cujos estúdios davam uma importância de produção menor.

O filme classe B não é necessariamente ruim. Na verdade, muitos filmes classe B se tornaram clássicos, e entre eles o exemplo mais notório é, sem dúvida, Casablanca, dirigido por Michael Curtiz. Considerado classe B com elenco classe A, Casablanca ganhou a reputação do filme feito para cumprir contrato, e o estúdio deixou em paz a produção, filmada totalmente lá dentro, com exceção de apenas uma cena, e rodado em relativo curto espaço de tempo.

Filmes classe B se tornaram, e ainda são, “cult” para muita gente. Enquanto que hoje nós podemos nos dar o luxo de colecionar e assistir um filme destes em qualquer momento, naquela época o cinema poeira era a opção de reprise mais viável. E, desnecessário acrescentar, com preço de ingresso muito mais baixo, em relação às principais cadeias de exibidores.

 A classificação de um cinema como “poeira”

A denominação “cinema poeira” é de origem popular e até hoje eu sou um que desconheço de onde ela veio. É mais ou menos a mesma situação de uma anedota que um amigo seu lhe conta, que ouviu de outro, e assim sucessivamente, sem que ninguém saiba de onde a anedota partiu ou quem a criou.

No entanto, a classificação de uma sala exibidora como “poeira” seguia critérios bastante distintos:

1. Os assentos eram de madeira.

2. Ausência de ar condicionado.

3. Tela sem cortina.

4. Aparelhagens de projeção arcaicas (35 ou 16 mm).

No âmbito da Tijuca (Rio de Janeiro), já comentado aqui na coluna, o antigo Cinema Tijuca, conhecido como “Tijuquinha”, foi o principal poeira, bem no coração da Praça Saens Peña. Logo ao seu lado, estava o luxuoso e moderno Metro-Tijuca, então o contraste era inevitável.

O Tijuca vivia cheio, apesar da falta do ar condicionado. A projeção era bastante decente, e quem não tinha recurso para ver o filme nos cinemas lançadores, bastava esperar uma semana e o filme entrava no Tijuca. Quando ele fechou, foi aberta uma loja com o nome de “Tijuquinha das Frutas”. Irônico, não é não? E hoje, quem passa pela Praça, basta olhar de frente as Lojas Americanas: a entrada da direita era onde ficava o Tijuquinha. O nome Cinema Tijuca, entretanto, ficou: quando o grupo Severiano incorporou e reformou o antigo Eskye-Tijuca, o cinema foi rebatizado como “Tijuca”, com aparelhagem Incol 70/35, inclusive.

Nos arredores da Praça Saens Peña, outro famoso poeira era o Santo Afonso, cinema onde o advogado e dono da réplica do Metro construída em Conservatória, Ivo Raposo Jr., militou como operador, desde épocas remotas de sua adolescência. O Ivo, como ele mesmo me contou, saía do Colégio Batista, e ia trabalhar na cabine do Santo Afonso, e lá viveu uma história muito parecida com a do menino Totó, de Cinema Paradiso, obrigado a cortar cenas impróprias dos filmes exibidos. É que o Santo Afonso pertencia aos padres da Paróquia do mesmo nome. Um deles assistia o filme, e mandava o operador retirar o rolo e cortar a cena na coladeira, coisa que o Ivo fez muitas vezes. O seu depoimento mais detalhado foi publicado como parte do projeto Planetary Projection, da Editora canadense Caboose.

O interessante é que o porteiro do Santo Afonso ficaria conhecido dos meninos da rua como aquele que fazia vista grossa para a nossa entrada em filmes proibidos para menores de 18 anos. Assim, quando alguém descobria alguma coisa interessante passando por lá, e impossível de se ver em um cinema de cadeia, a turma comprava inteira (o ingresso era muito barato) e entrava no cinema na maior cara de pau deste mundo.

A censura sempre foi pudica. Amor, Sublime Amor, por exemplo, era proibido para menores de 16 anos, por causa do tema “gangues de rua”. Eu tinha 15 anos quando o filme abriu no Madrid, e só entrei porque o porteiro não viu direito a minha carteira de estudante!

 A paródia inglesa dos cinemas poeira

Um filme curto, hilário e bem dirigido, “The Smallest Show On Earth”, tem no elenco Peter Sellers, em um dos seus melhores trabalhos, e atores competentes, mostrando o confronto público entre um cinema de luxo e um poeira.

A ideia do roteiro é muito simples: o personagem herda um cinema antigo de uma cidade pequena do interior da Inglaterra, herança do tio que ele mal conheceu. Chegando lá, e não conseguindo um preço justo para venda, resolveu reabrir o cinema, para atiçar a cobiça do concorrente.

Peter Sellers faz o papel do projecionista, mas um homem com idade suficiente para lidar com os projetores do início do cinema sonoro. Quando o trem passa na estação ao lado do cinema, a aparelhagem balança toda e Sellers é obrigado a abraçá-la, para não desabar tudo:

Exagero? Nem tanto. O filme segue com cenas hilárias, da plateia se divertindo com as falhas de projeção. É que no cinema poeira (chamado pelos ingleses de “flea pit” ou “poço de pulgas”) tudo é permitido, e quando a bagunça acontecia e tomava proporções exageradas, aparecia o lanterninha para colocar os recalcitrantes para fora.

Digno de nota, o cinema do filme inglês tem o nome de “Kinema Bijou”, com “K” mesmo, seguindo as raízes da palavra grega, que significa “(imagem) em movimento”. Os europeus guardaram a tendência de chamar sala de cinema como “Cinema”, com a troca do K pelo C, como nós também fizemos. Por isto, não é de se admirar que o termo “Home Theater” seja também chamado de “Home Cinema” pelos fabricantes europeus.

 Klaatu barada nikto!

Um filme classe B que eu adoro, e recomendo para quem ainda não viu, é o clássico “O Dia Em Que A Terra Parou”, magnificamente dirigido por Robert Wise. Aliás, quando Wise foi convidado para dirigir o primeiro Star Trek do cinema, muitos ficaram espantados, por causa da fama do diretor em filmes musicais (Amor Sublime Amor, A Noviça Rebelde e outros). Mas, acontece que a experiência no gênero ficção científica do diretor tinha precedência e, não por acaso, alguns anos antes Robert Wise havia dirigido “O Enigma de Andromeda”, primeiro filme escrito por Michael Crichton, que depois escreveu “Jurassic Park”.

O filme de Wise não é somente uma obra de ficção científica elegante, ele é também um discurso contra atos de violência e autodestruição da humanidade, protestando, neste caso, contra o uso da energia atômica para fins destrutivos. Tudo isto, em 1951, pouco tempo depois, relativamente, da saída do planeta da segunda guerra mundial, quando então muitas lições a este respeito já deviam ter sido aprendidas. Mas, não o foram até hoje, o que torna este filme extraordinariamente atual.

“Gort, Klaatu barada nikto!” é o apelo repetido por Patricia Neal, no personagem Helen Benson, ao robô Gort. A frase, como era hábito em Hollywood naqueles tempos, nunca foi traduzida nem comentada pelo autor do roteiro e criador da linguagem alienígena Edmund North, tendo sido alvo de interpretações de fãs e outros exegetas pelo mundo todo. North teria dito ao historiador Steven Rubin que a frase significaria “Há esperança para a terra, se os cientistas puderem ser alcançados”. Mas, quem assiste ao filme nem precisa de tradução. A frase alerta Gort que ele não deverá tomar qualquer atitude de represália e destruir o planeta, por conta da prisão de Klaatu, o alienígena.

O Dia Em Que A Terra Parou é o filme de eleição para a gente preparar a pipoca, se sentar na sala e deixar o tempo correr. É o epítome do que o cinema como diversão representa para todos nós.

E se hoje nós não temos nem chance de ir ao cinema poeira da esquina para vê-lo, basta recuperá-lo em DVD ou Blu-Ray. O filme foi recentemente restaurado, e até mesmo a edição em DVD é ótima para uma sessão em casa.

Texto e imagem reproduzidos do site: webinsider.com.br

terça-feira, 4 de julho de 2017

Cinema ambulante, em Portugal












António Feliciano é o guardião do cinema na aldeia. Anda de terra em terra. 
Semeia felicidade. Difunde cultura e oferece sonhos.
Fotos reproduzidas do site: visao.sapo.pt

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Palladium completa 50 anos de muitas histórias

Nos anos 70, 80 e 90, o Cine Palladium era marcado pela 
qualidade de som e projeção e pelo conforto.

Publicado originalmente no site Hoje em Dia, em 07/02/2013.

Palladium completa 50 anos de muitas histórias
Paulo Henrique Silva.

Reza a cartilha dos relacionamentos amorosos que o primeiro encontro deve acontecer num lugar marcante, para causar boa impressão no pretendente. O Palladium cumpriu esse papel por três décadas (70, 80 e 90), como a casa preferida dos namorados.

Prestes a completar 50 anos, em 31 de julho, o cinema localizado na rua Rio de Janeiro, hoje transformado em centro cultural, não só deixa saudades nos casais apaixonados como também entre aqueles que exigem conforto e qualidade de projeção.

Luxo

A sala já nasceu com uma vocação superlativa, tornando-se imediatamente o cinema mais sofisticado de Belo Horizonte. "Tinha o ingresso mais caro na época. Mas era um luxo só: o chão e as paredes eram atapetados na cor vermelha e os funcionários tinham que trabalhar de terno", lembra Marcelo Amâncio, projecionista do Palladium durante os anos 80.

O pesquisador e professor de cinema Ataídes Braga destaca que, até 1999, quando foi fechada pelo grupo Cineart, a sala foi a mais importante de Minas Gerais. "Além do seu tamanho, com dois mil lugares, foi o primeiro a seguir o modelo americano de suntuosidade: grande, bonito e confortável", observa.

A programação seguia esse padrão, buscando o meio termo entre produções comerciais e de preocupação artística. "Os proprietários tinham um cuidado maior com o Palladium. Era o xodó deles. O cinema recebia os filmes em primeira mão, que depois circulavam pelas outras salas da cidade e do interior", recorda Valdir Guimarães, que também trabalhou como projecionista da sala.

Público exigente

Ele assinala que ônibus especiais paravam na porta da sala trazendo espectadores de outros municípios. Aconteceu com "Ghost" (1990), que ficou seis meses em cartaz na sala, e com "Titanic" (1997), possivelmente o último filme a lotar o Palladium. "O público era mais exigente que o dos outros cinemas. Até mesmo a música ambiente era selecionada".

O som, por sinal, sempre foi motivo de orgulho. "Tinha a melhor acústica da cidade, o que acabou se perdendo após o incêndio de 1972, quando tiveram que abrir uma porta lateral", registra Braga.

Um episódio marcante aconteceu dois anos após a sala pegar fogo, durante a projeção de "Terremoto". Moradores vizinhos se assustaram ao sentir o chão tremer. "Adaptamos caixas de som no caixão, com os fios passando por baixo do carpete. As pessoas ficavam com medo", esclarece Guimarães.

Pesquisador cobra espaço para a 7ª arte

O Palladium foi, durante suas primeiras três décadas, a segunda maior bilheteria do país, só perdendo para outro cinema de Belo Horizonte, o Brasil. Esses dados serão compilados num livro preparado por Ataídes Braga.

Segundo plano

O pesquisador lamenta que o Sesc tenha posto o cinema em segundo plano, com exibições em vídeo e problemas de acústica. "Por que não exibem os filmes no Grande Teatro, em duas sessões na parte da tarde? Isso não atrapalharia em nada os espetáculos da noite", sugere.

Milena Pedrosa afirma que há um estudo para aquisição de equipamento de cinema, mas não há definição ainda sobre viabilidade e prazos. "É uma ironia o fato de a melhor sala da cidade tratar tão mal o cinema", critica Braga.

Texto e imagem reproduzidos do site: hojeemdia.com.br